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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Passagem de Lampião em Euclides da Cunha-BA (Cumbe) em versos


LAMPIÃO NO CUMBE DO MAJOR ANTONINO
(15 DE DEZEMBRO DE 1928)

Por Dionísio Nóbrega


Com mais  de 3 meses na Bahia
 Lampião parou na fazenda Araçá
Precisava  de um guia de confiança
Para sobre  Cumbe se informar

Nesta fazenda de Dedé de Abreu
Lampião chegou no alvorecer  do dia
Para conseguir um bom informante
E que o acompanhasse como guia

Acervo Fundaj MEC
No Cumbe a Rua Major Antonino
Já foi chamada de Estrada do Araçá
Pelo povo e os que vinham do norte
Para passear, vender e comprar.
 
Ao pisar na Praça da Feira
Armado e bem informado
Foi logo pra Rua da Igreja
Onde morava o Delegado

O delegado dessa época
De nome Luiz Caldeirão
Foi  muito bem tratado
Pelo já famoso Lampião

Chegar num dia de feira
Para Lampião foi um achado
Ele e os demais cangaceiros
Conseguiram um bom catado

E como era dia  de festa
Muita gente o viu chegar
Uns ficaram sem entender
O lampião neste lugar

Muita gente se assustou
Na velha Praça do Barracão
Alguns chegaram a correr
Quando viram o Lampião




Os mais velhos se lembraram
Do chefe da 3ª expedição
Mas depois se tranquilizaram
Com a visita de Lampião


Qual seria o mais malvado?
Moreira Cesar ou Lampião?
Nem no Cumbe nem no Araçá
Não foram eles violentos não
Lampião não quis saber do “ Lua”
Intendente de Cumbe  na ocasião
Preferiu o Delegado de Polícia
Para  recebê-lo como anfitrião

Em Cumbe, Lampião não perde tempo
Primeiro o dinheiro, depois a diversão
Tanto que em menos de meia hora
Começa o trabalho de arrecadação

Lampião, o “Rei do Cangaço”
Não quis saber de briga não
Houve festas, músicas e paz
Graças ao delegado Caldeirão

Na histórica casa de Seo Dantas
Perto de Nossa Srª  da Conceição
Por cerca de três anos já residia
O amigo e genro Luis Caldeirão





Seo Dantas correu às pressas
Para ver a sua filha querida. 
Mas todos estavam tranquilos
Sem nenhum perigo de vida!
Dona Neném, filha de Seu Dantas,
Esposa do delegado Caldeirão,
Tranquilizou amigos e parentes
Como anfitriã do homem Lampião


Os jagunços de Antônio Conselheiro
Muita coisa desta casa quebraram
Porém trinta e um anos depois
Nela os cangaceiros se hospedaram



foto, ano 1935


Foto acervo: Maria Luiza (Lulu Modas)

Casa de Dona Nenem , ano 2013
Imagem: google



Ninguém ousaria enfrentar
Lampião em quebra-de-braço
Mas houve muita compreensão
Do grande chefe do cangaço


Muitos euclidenses sofreram
Com os bilhetes de Lampião
Escritos de uma maneira geral
Com muito respeito e educação

Dizem que o que dá pra rir
Também dá para chorar
Mas se algo não acontece
Não se tem o que cantar

O primeiro a receber bilhete
Foi o coronel Dedé de Abreu
Que apavorado prejulgou
Perder tudo o que era seu

Manuel Araçá, seu fiel vaqueiro,
Apareceu como que de repente
Sem saber como se justificar,
 Com uma cara triste de inocente



Por ser o primeiro escolhido
O velho Dedé não gostou não:
“Antes não tivesse aparecido
Esse famoso cangaceiro Lampião”

Ao receber a desgraça do bilhete,
Exigindo dele uma boa quantia,
Perguntou ao seu fiel vaqueiro:
“Você foi trazido como guia?!”

Tirar dinheiro do velho Dedé
Nunca foi muito fácil não!
Só mesmo o rei do cangaço
Virgulino Ferreira Lampião

Coronel Dedé de Abreu
Morava na Rua de Cima
Com Maria de Joaninha
Pertinho de outros Lima

Muito difícil para alguém
Arrancar algo do que era seu
Mas o bilhete de Lampião
Estremeceu Dedé de Abreu

Após o bota-fora de Zé Antônio
Padre Berenguer o substituía
Porém só de vez em quando
É que este Vigário aparecia

Não era tão fácil chegar a Cumbe
Pelos caminhos  cheios de atalhos
Mesmo assim  o padre Berenguer
Andou quebrando muitos galhos

O intendente Joaquim  “Menino”
Preocupava-se com os intervalos
Do vigário amigo F.  Berenguer
Que vinha em lombo de cavalos

O padre e o político se uniram
Fazendo  acordo para construir
Uma estrada para automóveis
Que pudessem viajar (vir e sair)



15 de dezembro de 28, Berenguer
Chega num “Ford” que ele dirigia
Para louvar a padroeira de Cumbe
Uma semana depois do seu “Dia”

Para o Pe. Berenguer não foi bom
A chegada imprevista de Lampião
Imagine se na igreja haverá clima
Para se obter  boa concentração

O Lampião mandou um bilhete,
Como um “hóspede da cidade”,
Para o José Batista de Macedo
Que mandou somente a metade

Manoel do Araçá foi buscar
Na casa de Joaquim Matias
Dois contos para Lampião
Mas voltou de mãos vazias

Respondeu Joaquim Matias
Não vou mandar dinheiro não
Faço questão: eu mesmo levo
Eu quero conhecer o Lampião

Autorizado talvez por sua mãe
Edmundo tocou pra Lampião
Na casa histórica da Rua da Igreja
Talvez logo depois da refeição

Lampião pediu a Edmundo
Que tocasse uma bela canção
Que fosse muito conhecida
Do povo desse grande sertão

Edmundo, com apenas sete anos,
Neste inesquecível dia de feira,
Pegou a gaita e tocou muito bem
A linda canção “Mulher Rendeira”

Lampião ainda não tinha visto
Coisa mais linda neste mundo
Emocionado botou no colo
O ainda pequenino Edmundo

Neste 15 de dezembro de 28
No Cumbe do  Major Antonino
Os cangaceiros se emocionaram
Com o grande talento do menino

Onde está Ioiô da Professora
Para ler jornais pra Lampião
Noticiando os “grandes” feitos
Que muito abalaram o sertão?


Chamar Ioiô da Professora
Que coleciona e gosta de ler
Deixará Lampião emocionado
Porque de tudo ele vai saber.

Ioiô da Professora ficou feliz
Por ter conhecido  Lampião
Guardou-lhe vários jornais
Lidos em raríssima ocasião

Perfumes da marca “Cigália”
O chefão não deixou de comprar
A João Macedo e a Rogaciano
Para logo logo depois  usar

Para fazer lenço comprou tecido
E outras coisas mais de uma lista
Dizem que um dos vendedores foi
O ainda jovem Benjamin Batista

Na bodega do jovem “Zé” Dantas
Houve cachaçada dos cangaceiros
Todo o bando começou a beber
O Lampião foi um dos primeiros

Zé Dantas abriu um “Macieira”
E sorrindo ofereceu pra Lampião
Os dois, intercruzando os braços,
Beberam com muita satisfação



Os cabras ficaram satisfeitos
Talvez mais ainda com a refeição
Bem preparada por Dona Neném
Esposa do delegado Caldeirão

Na farra dos cangaceiros houve
Muita música cantada e tocada
O garoto Edmundo brilhou tanto
Que parecia até um conto de fada.




O povo se uniu pra ver a festa
Já que perdera todo o medo
Viu Lampião comprar perfume
A Rogaciano e a João Macedo.

Graças à colaboração das pessoas
Neste dia ninguém entrou pelo cano
Mas de tardinha eles caíram fora
Em procura da cidade de Tucano

Lampião convocou o chofer Zé Rico,
Que se dizia alagoano, e não baiano,
Para levar apenas quatro cangaceiros
Para a vizinha cidade de Tucano

Berenguer também foi chamado
Para levar os outros até Tucano
Mas ao inventar  “quebrar” o carro
Por pouco não entrou pelo cano

A notícia do carro “quebrado”
Deixou os cabras sem ação
Uns se encheram de dúvidas
Talvez mais ainda o Lampião

Depois ficaram sabendo
Que o padre os enrolou
A partir desse momento
A paz do vigário se acabou

Tucano  muito rico de água
E estradas de muito barro
Aí Zé Rico não conseguiu
Evitar o atoleiro do carro

Estava muito tarde em Masseté
Deixou-se tudo para o outro dia
Desatolar o carro de José Rico
Era o que Lampião mais queria

Depois de tanta luta para viajar,
Um verdadeiro sacrifício humano,
Finalmente o motorista  José Rico
Conseguiu ver a cidade de Tucano

Em Tucano, Demóstenes o entrevista
Para ambos uma verdadeira glória
Graças aos esforços deste jornalista
Escreveu-se um capítulo da história.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Emancipação de Cumbe: 19 de setembro de 1933 ou 11 de Junho de 1898?



     Por J. Dionísio Nóbrega

O tenente-coronel da Guarda Nacional Antônio Francisco de Souza Reis, conhecido por “Major Antonino”, vendo que o seu torrão natal já reunia todas as condições para se emancipar de Monte Santo, entrou em contato com Dr. Francisco Carvalho do Passo Filho, deputado recém-eleito pelo 5º distrito, para que submetesse à apreciação da Câmara petição que elevava à categoria de Vila o arraial de Cumbe¹. Nessa época os municípios tinham como sede vila ou cidade.
Segundo deputado mais bem votado por seu distrito, amigo íntimo do governador Luiz Vianna², conhecedor profundo da região sertaneja, Dr. Passo Filho era o melhor representante da Assembléia Legislativa para tornar realidade a tão desejada emancipação. E tudo corria a favor de Cumbe.
Monte Santo não criaria nenhum problema. O seu intendente, Cel. Felisberto José Pinheiro, fora na década de 1880, como Juiz Suplente, o principal colaborador de Dr. Passo Filho quando este exerceu o cargo de juiz de direito da Comarca. Natural de Nova Soure, filho do 1º Intendente daquele município, coronel Francisco Carvalho do Passo, Dr. Passo Filho mantinha fortes vinculações familiares em Tucano e Massacará. Era dono da grande fazenda “Olhos d’Água” não muito distante de Masseté. Ainda hoje há um lugar de Masseté abaixo conhecido pelo nome de Lagoa do Passinho. Passinho, nome popular de Dr. Passo Filho, tinha muitos parentes em Tucano, principalmente na Taboa e Muriti dos “Alves do Passo”. Um irmão seu mais novo, Dr. Américo Carvalho do Passo, viveu os últimos dias de vida na Fazenda Bendó do antigo município de Pombal ao lado da esposa Umbelina Arsênia da Gama Passo, ou simplesmente Belinha do Bendó, que entrou na história de Canudos como doadora da cumeeira e outras peças de madeira para a igreja nova de Canudos da época de Antônio conselheiro. Dr. Passinho era, pelo lado materno, sobrinho do coronel José Américo Camelo de Souza Velho. Portanto, primo carnal do Cel. Potâmio que será Intendente de Cumbe em dois mandatos.
Há uma possibilidade real de parentesco entre Dr. Passo Filho e o Major Antonino. As mães de ambos desfrutam dos mesmos sobrenomes: Caetana de Morais. A do Major Antonino chamava-se Antônia e a de Dr. Passo Filho, Maria, sendo que a primeira teria idade de ser mãe desta última. O avô materno de Dr. Passinho atendia pelo nome de Américo Camelo de Souza, e Souza faz parte do nome do Major Antonino.

O projeto de emancipação de Cumbe correu na Câmara dos Deputados sob o número 477 e sua primeira discussão se deu a 9 de julho de 1897. Estava Canudos, que já pertencia à freguesia de Cumbe, em plena Guerra.
Na Câmara, Dr. Francisco Carvalho do Passo Filho declarou que lamentava o esquecimento a que Cumbe foi submetido, visto não conhecer no sertão localidade mais próspera e de futuro lisonjeiro. Em seguida, enalteceu-lhe a beleza indescritível das paisagens, dos vales e colinas, a salubridade do clima, as riquezas florestais, a produção agrícola e a industria pastoril, o comércio da grande feira, distinguindo-se como um dos maiores mercados da região, a uberdade e a pujança do solo. Traçou-lhe um perfil da urbanização, das edificações de um modo geral, do templo católico, da casa onde funcionará o Conselho Municipal (hoje Câmara de Vereadores), do barracão da feira do primeiro e grande líder Major Antonino, de uma maneira tão entusiasmada que os colegas deputados não lhe fizeram a menor oposição⁴. Pelo contrario, foi muito aplaudido. Soube apresentar com motivação, talento e capacidade persuasiva os aspectos essenciais do futuro município.
A segunda discussão ocorreu a 27 de abril de 1898. Dr. Antonio Carlos de Souza Dantas, filho do ex-presidente da província da Bahia, Dr. João dos Reis de Souza Dantas, e sobrinho do Conselheiro Dantas, submeteu à consideração da Casa uma emenda que mudava a expressão Vila de Nossa Senhora do Cumbe para simplesmente Vila do Cumbe.
Outra grande intervenção foi a do deputado curaçaense Scipião Torres, um dos signatários do projeto ora  em discussão. Como representante da 5º circunscrição, fez discurso convincente e, dentre outras coisas, lembrou que, sendo elevado à vila, Cumbe se constituirá num município onde se estabelecerá uma Coletoria que fará a cobrança dos impostos estaduais com mais regularidade e mais ordem.
Também o deputado Carlos Leitão, filho do coronel José Leitão, de Santa Luzia (hoje Santa Luz), lembrou aos colegas o lindo madrigal com que Dr. Passo Filho cantara as belezas do Cumbe.

O único que criou algumas dificuldade foi o Cônego Novais que, fazendo oposição ao governo Luiz Vianna, requereu, por intermédio da mesa, informações do Conselho Municipal de Monte Santo⁵. Encerrada a discussão, ficou o requerimento prejudicado, pelo que pediu se consignasse em ata ter votado contra o projeto⁶. Em 6 de Maio de 1898, em 3º e ultima discussão, aprovou-se o projeto.


No senado do Estado, o projeto, que chegara a 11 de Maio de 1898, correu rápido, visto que os senadores, por unanimidade, foram a favor⁷. Petição do Conselho Municipal da Vila de Tucano⁸, reclamando contra o projeto, nem sequer entrou em discussão, a qual deve ter se originado do fato de que no projeto de criação do município de Cumbe se incluíram sítios ou fazendas do município de Tucano, como por  exemplo Casabu e Algodões. Muitos anos depois, a pedido de Dr. Teotonio Martins, o prefeito Jose Camerindo de Abreu devolveria ao município vizinho o povoado de Algodões.

Rápidas e sucessivas foram as discussões e aprovações de 4,6 e 11 de julho de 1898. Decretado pelo Senado e levado ao então governador conselheiro Vianna, para sanção, o projeto de emancipação da Vila do Cumbe transforma-se na Lei nº 253⁹. Na realidade a Lei nº 253 deveria ter saído com a data de  20 de julho de 1898, mas foi publicado oficialmente com a data de 11 de Junho de 1898.
Através do Dec. nº 23, de 31 de Dezembro 1898¹ᴼ, o chefe do executivo baiano designou o dia 26 de fevereiro de 1899 para que se realizasse em Cumbe a sua primeira eleição, da qual saíram intendente o Major Antonino, líder político local que muito lutara para a emancipação de seu povoado, e membros do Conselho Municipal, o coronel Arsenio Dias Guimaraes, do Caimbé, Ernesto Francisco da silva Reis, filho do Major Antonino, Luiz Martins de Almeida (Seo Lulu), da Lagoa do Barro, Joaquim de Carvalho Lima, filho de Baltazar Francisco Lima (primeiro Lima a pisar no Cumbe), José Joaquim de Santana (pai do futuro intendente e também prefeito Joaquim Menino) e Raimundo José do Conselho (Raimundo Cajazeira), esposo de Maria do Brejinho e pai de Manuel do Conselho Campos (Detinho).
De acordo com a Lei nº 104, de 12 de agosto de 1895¹¹, houve a segunda eleição em 9 de Novembro de 1902, na qual se elegeu intendente Potâmio Américo de Souza, com 25 anos incompletos, grande amigo de Dr. João da Costa Pinto Dantas, de quem se dizia primo, filho do coronel José Américo e sogro de Ioiô da Professora.
Elegeram-se presidente do Conselho Municipal (hoje Câmara de Vereadores) João Alves de Souza (pai de Apromiano Alves de Campos), natural do antigo Bom Conselho (hoje Cícero Dantas), e membros do Conselho os senhores Zacarias Dantas do Nascimento (descendente dos Dantas Pereira do Bom jardim), Raimundo da Silva Dantas (tio dos irmãos Ioiô Dantas e Zé Dantas, avô de Floranice), inimigo declarado do povo conselheirista de Canudos, Pedro Francisco da Silva Guimaraes (descendente dos Pereira Guimaraes de Campo Formoso e dos Mendes da Silva do Caimbé), Felixberto de Macedo primo (pai de Chiquinho do Beto, de Zé Macedo, João Macedo e outros), da Lagoa do Barro, Quintino Lopes de Castro (conhecido por Quinto Lopes), pai de Castrinho e muitos outros, e Rozendo Ferreira Primo (avô de IoIô de Hermógenes e de outros, sogro de João Macedo, de Benjamim  Batista e de Edmeia de Joãozinho da Barriguda), morador no Riacho d’Água.

Além do Major Antonino (dois mandatos?) e Cel. Potâmio (eleito em 1902), Cumbe terá até 1930 os seguintes intendentes: coronel Arsenio Dias Guimaraes (três mandatos), morador no Caimbé; capitão Francisco da Silva Dantas, sergipano de Cristinápolis, que conseguiu trazer de Salvador para Cumbe a professora Erotildes Siqueira (mãe de Zeca da professora Antonieta, de Dominguinho, de Ioiô da Professora, além de outros); Joaquim de Carvalho Lima (tio de um dos chefes políticos de Cumbe: Joaquim menino); Benevides Dias Moreira (pai de filhos euclidenses e tucanenses, tio da professora Luti e D. Iaiá do Correio), filho do Professor Moreira, de Massacará, e bisneto de um dos compradores do Aribicé; coronel Potâmio Américo de Souza (2º mandato), Joaquim de Santana Lima (Joaquim Menino), pai do vereador Zezé Lima e de muitos outros; e Luiz Ferreira do Nascimento (Seo Lua), sogro de Zé Dantas e último intendente de Cumbe.
Em 7 de Maio de 1901, o Secretário do Tesouro e Fazenda do Estado resolve exonerar o coletor recém-nomeado José Lopes Guimaraes, casado com D. Julia Emília, filha do Padre Sabino, por não ter se habilitado no prazo que lhe fora marcado, e nomeou para o dito cargo o cidadão Francisco Dantas.
Os Lopes Guimaraes vieram para Cumbe por influência do pai do Major Antonino, Manoel Felix dos Reis, que viúvo de D. Antônia Caetana de Moraes, entrou na família Lopes de Monte Santo sem deixar descendência.
Com a Lei nº 253, de 11 de junho de 1898, Cumbe deixou de ser um simples distrito de paz para tornar-se um dos maiores municípios da Bahia em área geográfica, compreendendo em seu território, alem do distrito-sede, as fazendas Jiboia, Castanhão, Riacho d’água, Beira da Serra, Juá, Lagoa da Mata, Penedo, Pocinhos, Barra da Fortuna, Coiqui, Poço de Cima, Serra Vermelha, Bom Jardim, Curralinho, Casabu, Algodões, Riacho, Campo Grande e Limoeiro, de modo a se limitar com Tucano, Monte Santo, Jeremoabo, Cícero Dantas e Pombal.

Capitão Dantas (à esq.) Cel Arsênio Dias Guimarães e Cícero
Dantas Martins (neto do Barão de Jeremoabo)


Com a revolução de 1930, a Bahia sentiu necessidade de reduzir o número de municípios com o fim de exercer maior domínio sobre eles. Arthur Neiva, como novo interventor federal na Bahia, buscou assessoramento em Bernardino José de Souza¹², sergipano conceituadíssimo como professor e administrador. Este notável Secretário Perpétuo do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), conterrâneo do capitão Francisco da Silva Dantas, construtor dos prédios da Faculdade de Direito do Portão da Piedade e do próprio IGHB, foi nomeado Secretario do Interior e Justiça, ficando sob sua responsabilidade a reorganização político-administrativa dos municípios.
Com a nova reestruturação, muitos municípios sumiram do mapa político baiano, alguns deles antigos e tradicionais, como por exemplo S. Sebastião. Isso pode ter causado insatisfação nos municípios incorporados. O interventor Neiva, para diminuir o mal-estar, deu-lhes o status de subprefeitura.
Ao território do município de Cipó, que se emancipara a 8 de julho de 1931, por força do decreto nº 7.479,  foram anexados os municípios de Soure, ao qual Cipó pertencia como povoado, Pombal, Tucano e Amparo.
Cumbe, emancipado desde 1898, e Uauá, em 1926, voltaram a pertencer a Monte Santo em 8 de julho de 1931 pelo Decreto nº 7.478. Quinze dias antes, Cumbe fora equivocadamente anexado a Paripiranga através do Decreto nº 7.455, de 23 de junho de 1931.
Por causa dessa política anexacionista, conheceu Cumbe um momento dos mais delicados de sua historia, um verdadeiro retrocesso político. Dos anexados que se restabeleceram em 1933, Cumbe foi o último município da Bahia a ter subprefeitura e subprefeito. Com a criação dessa estrutura política de subprefeitura consolaram-se pelo menos alguns municípios desaparecidos.
Em menos de um mês de anexado, Tucano conseguiu a nomeação em 4 de Agosto de 1931 de seu subprefeito, o tenente Abdias Freire de Andrade (vide DOE, 03/08/31). Dois dias antes de Tucano, saíra o nome de Antônio de Brito Costa, de Pombal (vide DOE, 01/08/31).   Uauá, ainda um pequeno município, emancipado 28 anos depois de Cumbe, teve subprefeito, o senhor João Minervino de Macedo, também em 1º de agosto de 1931. Cumbe, no entanto, fora esquecido. Quase dois anos depois da perda de autonomia, precisamente a 17 de março de 1933, é que foi criada a subprefeitura (Dec. Nº 8.420, de 17/03/1933) e 63 dias depois (24 de maio de 1933) foi nomeado subprefeito o senhor José Camerino de Abreu (DOE, 24 de maio de 1933)
O 19 de Setembro é uma data histórica relevante não só para a cidade como para todo o município, pois foi neste dia do ano 1933 que Cumbe se restabeleceu como município através do Decreto nº 8.642, baixado pelo interventor federal, interino, Manoel Matos Correa de Menezes. Nesse mesmo dia foi nomeado prefeito o subprefeito José Camerino de Abreu. Correa de Menezes, pelo Decreto nº 8.653, de 25 de setembro de 1933, designa o dia 10 de Outubro daquele ano para a instalação de Cumbe, de Uauá e Pombal.
Pelo Decreto nº 11.089, de 30 de Novembro de 1938, o município e seu distrito-sede passaram a denominar-se Euclides da Cunha, em homenagem ao historiador da Campanha de Canudos, autor de “Os Sertões”. Como se vê, há várias datas históricas para o município de Euclides da Cunha  comemorar.

NOTAS
1. Anais da Câmara dos Senhores Deputados do Estado da Bahia, vol. IV, 54ª sessão ordinária
2. Anais da Câmara dos Senhores Deputados da Bahia, Vol.IV, 54ª sessão ordinária; Anais da Câmara, sessão em 17 de agosto de 1897, pag. 269
3. Anais da Câmara dos Senhores Deputados do Estado da Bahia, Vol. IV, 54ª sessão ordinária
4. Anais da Câmara dos Senhores Deputados do Estado da Bahia, Vol. IV
5. Anais da Câmara dos Senhores Deputados do Estado da Bahia, Vol. I, 9ª sessão ordinária
6. Anais da Câmara dos Senhores Deputados do Estado da Bahia, Vol. I, 9ª sessão ordinária
7. Anais da Câmara do Senado do Estado de 1898, Vol. I,  21ª sessão ordinária
8. Anais da Câmara do Senado do Estado de 1898, Vol. II,
9. Anais da Câmara do Senado do Estado de 1898, Vol. III, 65ª sessão ordinária
10. Enciclopédia dos Munícipios-Ba
11. Livro do Tabelionato do município de Cumbe
12. Bernardino j. de Souza estudou no Ginásio Carneiro Ribeiro e na Faculdade de Direito da Bahia, de que foi professor

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

CONSELHEIRO FRANCISCO, CONSTRUTOR DA VELHA IGREJA DE CUMBE


AUTOR: JOSÉ DIONÍSIO NÓBREGA


Imagem da internet

As condições de vida do homem no sertão levam-no a ter um comportamento religioso tão forte que lhe permite suportar as piores desgraças. Não há limites  de sofrimento que o faça perder o ânimo e, quando  este se vai, há ainda as mãos de Deus em que se põem as últimas esperanças. O sertanejo aceita tudo com uma bravura formidável, mesmo nos períodos de seca prolongadíssimos, arrasadores. Sua fé nunca morre. Quando a terra ressequida não lhe dá mais o sustento, os homens piedosos – beatos e conselheiros – com liderança incontestável, dão-lhe o pão da alma, reconfortando-o. É nesse campo fértil de religiosidade extrema  que surgem esses semideuses das caatingas inóspitas e inalcançáveis, os quais substituem com vantagens os vigários romanizados, elitistas e distantes do povo.

O mais célebre deles foi Antônio Conselheiro que, em duas décadas, construiu ou reconstruiu quase uma vintena de igrejas e capelas, sem contar os muros de cemitérios e outras benfeitorias inesquecíveis. Em torno de sua figura, criou-se uma aura de santo, o povo que o seguia transformou-o no “Bom Jesus Conselheiro”, um exemplo raro de alma santificada. Sua fama  de penitente, de hábitos simples e moral rígida, correu os sertões, abafou a existência de outros peregrinos que se largavam por essas caatingas a pregar o bem e a fazer obras meritórias.


Há notícias em Quijingue (antigo Triunfo) de que em um sitiozinho da fazenda Curral Sagrado chegou a morar um senhor de nome Francisco Maria de Jesus, conhecido por Francisco Conselheiro ou Conselheiro Francisco. Segundo ofício de 1891 do vigário de Itiuba para Dom Manoel dos Santos Pereira, vestia-se de hábitos talares, uma espécie de túnica de algodão americano azul, sobre a qual envergava ainda uma capa preta de chita ou de madrasto, com franjas, em forma de uma casula, que chama de escapulário. Por cima de tudo isto, pende-lhe sobre o peito um pequeno crucifixo de metal sustentado por um cordão preto. Era um sujeito moreno, acaboclado, de barbas e cabelos pretos e crescidos, possivelmente mais baixo e mais jovem do que o

Imagem: http://quijinguecom.blogspot.com.br/

Conselheiro de Belo Monte. Cultivava o hábito de dirigir-se  às casas de famílias para rezar o terço e fazer as suas “práticas”,  a que o povo dava o nome de conselhos, de modo que se formara, em torno dele, grande multidão. Sem uma rua sequer, Triunfo, àquela altura, começava a ter necessidades de um templo de orações. A simples presença do humilde peregrino criou um clima de motivação à edificação de uma capela. “Seu” Antônio Gregório - vaqueiro da fazenda Onça – ofertou o terreno e as mulheres se reuniram para doar o sino. Leôncio Almeida, de Quijingue, disse a Pe. Henrique José do Nascimento que as pedras para a construção da igreja de São João vieram de Curral Sagrado carregadas em banguê e que o Conselheiro Francisco veio a falecer por volta de 1906. Em pouco tempo, estava pronta a igrejinha de São João, projetada e edificada pelo “piligrino”, com a ajuda dos moradores e fazendeiros do Rio Cariacá ao Rio Quijingue. A praça veio logo em seguida.

Em Cumbe, ocorreu diferente. Havia já uma capelinha de palha, insuficiente para abrigar a população católica que crescia, principalmente após a transferência da Freguesia de Massacará para a terra do Major Antonino. Com o povo reunido em torno da figura mística de Francisco Conselheiro, levantar a igrejinha de N.S da Conceição não foi tarefa das mais difíceis, mas também não  foi assim  da noite  para o dia. Sua estrutura era maior e bem mais complexa que a de Triunfo. As mulheres,
entusiasmadíssimas, em procissão, traziam, com rodilhas à cabeça, pedras de um dos altos acima do cemitério, enquanto os homens fabricavam adobes no Sobradinho, ao pé da serra de Cumbe (hoje serra da Santa Cruz). Durante o tempo em que passou à frente da construção, o não tão célebre Francisco morou sozinho em casa desmobiliada onde se apinhavam as beatas. Com a chegada do padre Sabino em 1881, o clima de mutirão da construção da igreja de Cumbe ter-se-ia alterado? Acho que não. Durval V. de Aguiar, autor do livro “Província da Bahia”, ao passar neste arraial por volta da segunda metade da década de 1880, não fez nenhuma menção ao referido padre. Constatou, no entanto, a presença de um conselheiro que edificava uma excelente igreja, confundindo-o com o Antônio Conselheiro que terminara a igreja de Mocambo (atual Olindina), e ainda traçou-lhe um perfil muito aproveitado por Euclides da Cunha em “Os Sertões”.

Para construir a igreja de N.S. da Conceição de Cumbe e a do antigo Triunfo, povoado onde virá a falecer e seu corpo será enterrado, Conselheiro Francisco, segundo  Felisberto, prefeito de Quijingue, e seu irmão Elias Custódio da Silva, se socorreu do amigo e pedreiro pernambucano José Bezerra. No ano de 1958 seu neto Zuza Bezerra se elegeu prefeito do município de Euclides da Cunha e depois deputado estadual. Na opinião de Ioiô da Professora, Mestre Luis participou da construção da velha igreja de Cumbe mais do que o avô de José Bezerra Neto.
Teria sido o Conselheiro Francisco um representante do celebérrimo “Rei dos Jagunços”, como o foi o beato Paulo José da Rosa que reconstruiu a igrejinha de Santo Antônio dos Canudos? Será  que Antônio Conselheiro permitiria que um beato seu também desse conselhos?

O Pe. José Gumercindo, fundador da Sociedade Joseleitos de Cristo, e o seu pupilo Pe. Henrique admitiam que Conselheiro Francisco, sergipano de nascimento, antes de construir as igrejas de Cumbe e de Triunfo, chegou a fazer parte do grupo seleto de Antônio Conselheiro, não o seguindo por discordar da presença constante de homens armados entre os seguidores. Leôncio Almeida, falecido por volta de 1973, beirando já  90 anos, é que contava essa e outras histórias.
Embora tenha ouvido de Manoel Ciriaco em Canudos que o Conselheiro Francisco fora o responsável pela construção da velha igreja de Cumbe, confirmado pelo historiador José Aras, professor Calasans preferiu a versão dada pelo coronel Durval Vieira de Aguiar, que confundiu, quando de sua passagem por Cumbe, a figura de Francisco com a do peregrino cearense.

O atraso da mudança do Pe. Sabino da freguesia de Massacará para Cumbe pode ter sido causado por dificuldade de acomodação de seus filhos menores nascidos de sua “querida” Dona Benta. Mas acredito que tenha conseguido angariar recursos de coronéis e outras autoridades para ajudar o sergipano Conselheiro Francisco a concluir a igreja de N.S. da Conceição, com a frente voltada para a serra do Cumbe, hoje serra da Santa Cruz.

Hospedado em Cumbe na casa de rancho de Antônio Carneiro, situada onde mais tarde seria a residência de Dona Joaninha de Seo Pequeno, próxima do fundo da igreja recém- construída, Antônio Conselheiro, no final de maio e início de junho de 1893, logo depois do “Fogo do Masseté”, com a ajuda de seus pedreiros, construiu, segundo Ioiô da Professora, o platibanda da igreja de N. S.  da Conceição do Cumbe do Major Antonino nos mesmos formatos das igrejas e capelas por ele construídas.

Professor José Calasans, diante dos meus argumentos, mudou de opinião e ficou feliz em saber que o Conselheiro Francisco era seu conterrâneo. Não demorou em escrever um belo artigo, corrigindo o que antes dissera, publicado em uma das revistas da UNEB.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E ENTREVISTAS

AGUIAR, Durval Vieira de. Descrições práticas da Província da Bahia. Rio de Janeiro:
Livraria Editora Cátedra, 1979, p. 83.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Editora Martin Claret, 3º edição, 2002, p. 205.

Carta de 04/02/1891 do vigário da Freguesia de Itiúba, Firmino de Souza Estrella, ao Bispo da Eucaristia e Auxiliar do Arcebispado da Bahia, Dom Manuel dos Santos Pereira sobre o Conselheiro Francisco. Centro de Estudos Baianos (Núcleo Sertão).

Entrevistados pelo autor:
Felisberto José da Silva, prefeito de Quijingue.
Elias Custódio da Silva (irmão de Felisberto).
Pe. José Gumercindo dos Santos, vigário da paróquia de Tucano e fundador da Sociedade Joseleitos de Cristo.
Pe. Henrique José do Nascimento, da Sociedade Joseleitos de Cristo.
Professor José Calasans Brandão da Silva.
João Siqueira Santos (IoIô da Professora).
Outros em entrevistas informais.

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