segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Passagem de Lampião em Euclides da Cunha-BA (Cumbe) em versos


LAMPIÃO NO CUMBE DO MAJOR ANTONINO
(15 DE DEZEMBRO DE 1928)

Por Dionísio Nóbrega


Com mais  de 3 meses na Bahia
 Lampião parou na fazenda Araçá
Precisava  de um guia de confiança
Para sobre  Cumbe se informar

Nesta fazenda de Dedé de Abreu
Lampião chegou no alvorecer  do dia
Para conseguir um bom informante
E que o acompanhasse como guia

Acervo Fundaj MEC
No Cumbe a Rua Major Antonino
Já foi chamada de Estrada do Araçá
Pelo povo e os que vinham do norte
Para passear, vender e comprar.
 
Ao pisar na Praça da Feira
Armado e bem informado
Foi logo pra Rua da Igreja
Onde morava o Delegado

O delegado dessa época
De nome Luiz Caldeirão
Foi  muito bem tratado
Pelo já famoso Lampião

Chegar num dia de feira
Para Lampião foi um achado
Ele e os demais cangaceiros
Conseguiram um bom catado

E como era dia  de festa
Muita gente o viu chegar
Uns ficaram sem entender
O lampião neste lugar

Muita gente se assustou
Na velha Praça do Barracão
Alguns chegaram a correr
Quando viram o Lampião




Os mais velhos se lembraram
Do chefe da 3ª expedição
Mas depois se tranquilizaram
Com a visita de Lampião


Qual seria o mais malvado?
Moreira Cesar ou Lampião?
Nem no Cumbe nem no Araçá
Não foram eles violentos não
Lampião não quis saber do “ Lua”
Intendente de Cumbe  na ocasião
Preferiu o Delegado de Polícia
Para  recebê-lo como anfitrião

Em Cumbe, Lampião não perde tempo
Primeiro o dinheiro, depois a diversão
Tanto que em menos de meia hora
Começa o trabalho de arrecadação

Lampião, o “Rei do Cangaço”
Não quis saber de briga não
Houve festas, músicas e paz
Graças ao delegado Caldeirão

Na histórica casa de Seo Dantas
Perto de Nossa Srª  da Conceição
Por cerca de três anos já residia
O amigo e genro Luis Caldeirão





Seo Dantas correu às pressas
Para ver a sua filha querida. 
Mas todos estavam tranquilos
Sem nenhum perigo de vida!
Dona Neném, filha de Seu Dantas,
Esposa do delegado Caldeirão,
Tranquilizou amigos e parentes
Como anfitriã do homem Lampião


Os jagunços de Antônio Conselheiro
Muita coisa desta casa quebraram
Porém trinta e um anos depois
Nela os cangaceiros se hospedaram



Ninguém ousaria enfrentar
Lampião em quebra-de-braço
Mas houve muita compreensão
Do grande chefe do cangaço


Muitos euclidenses sofreram
Com os bilhetes de Lampião
Escritos de uma maneira geral
Com muito respeito e educação

Dizem que o que dá pra rir
Também dá para chorar
Mas se algo não acontece
Não se tem o que cantar

O primeiro a receber bilhete
Foi o coronel Dedé de Abreu
Que apavorado prejulgou
Perder tudo o que era seu

Manuel Araçá, seu fiel vaqueiro,
Apareceu como que de repente
Sem saber como se justificar,
 Com uma cara triste de inocente



Por ser o primeiro escolhido
O velho Dedé não gostou não:
“Antes não tivesse aparecido
Esse famoso cangaceiro Lampião”

Ao receber a desgraça do bilhete,
Exigindo dele uma boa quantia,
Perguntou ao seu fiel vaqueiro:
“Você foi trazido como guia?!”

Tirar dinheiro do velho Dedé
Nunca foi muito fácil não!
Só mesmo o rei do cangaço
Virgulino Ferreira Lampião

Coronel Dedé de Abreu
Morava na Rua de Cima
Com Maria de Joaninha
Pertinho de outros Lima

Muito difícil para alguém
Arrancar algo do que era seu
Mas o bilhete de Lampião
Estremeceu Dedé de Abreu

Após o bota-fora de Zé Antônio
Padre Berenguer o substituía
Porém só de vez em quando
É que este Vigário aparecia

Não era tão fácil chegar a Cumbe
Pelos caminhos  cheios de atalhos
Mesmo assim  o padre Berenguer
Andou quebrando muitos galhos

O intendente Joaquim  “Menino”
Preocupava-se com os intervalos
Do vigário amigo F.  Berenguer
Que vinha em lombo de cavalos

O padre e o político se uniram
Fazendo  acordo para construir
Uma estrada para automóveis
Que pudessem viajar (vir e sair)



15 de dezembro de 28, Berenguer
Chega num “Ford” que ele dirigia
Para louvar a padroeira de Cumbe
Uma semana depois do seu “Dia”

Para o Pe. Berenguer não foi bom
A chegada imprevista de Lampião
Imagine se na igreja haverá clima
Para se obter  boa concentração

O Lampião mandou um bilhete,
Como um “hóspede da cidade”,
Para o José Batista de Macedo
Que mandou somente a metade

Manoel do Araçá foi buscar
Na casa de Joaquim Matias
Dois contos para Lampião
Mas voltou de mãos vazias

Respondeu Joaquim Matias
Não vou mandar dinheiro não
Faço questão: eu mesmo levo
Eu quero conhecer o Lampião

Autorizado talvez por sua mãe
Edmundo tocou pra Lampião
Na casa histórica da Rua da Igreja
Talvez logo depois da refeição

Lampião pediu a Edmundo
Que tocasse uma bela canção
Que fosse muito conhecida
Do povo desse grande sertão

Edmundo, com apenas sete anos,
Neste inesquecível dia de feira,
Pegou a gaita e tocou muito bem
A linda canção “Mulher Rendeira”

Lampião ainda não tinha visto
Coisa mais linda neste mundo
Emocionado botou no colo
O ainda pequenino Edmundo

Neste 15 de dezembro de 28
No Cumbe do  Major Antonino
Os cangaceiros se emocionaram
Com o grande talento do menino

Onde está Ioiô da Professora
Para ler jornais pra Lampião
Noticiando os “grandes” feitos
Que muito abalaram o sertão?


Chamar Ioiô da Professora
Que coleciona e gosta de ler
Deixará Lampião emocionado
Porque de tudo ele vai saber.

Ioiô da Professora ficou feliz
Por ter conhecido  Lampião
Guardou-lhe vários jornais
Lidos em raríssima ocasião

Perfumes da marca “Cigália”
O chefão não deixou de comprar
A João Macedo e a Rogaciano
Para logo logo depois  usar

Para fazer lenço comprou tecido
E outras coisas mais de uma lista
Dizem que um dos vendedores foi
O ainda jovem Benjamin Batista

Na bodega do jovem “Zé” Dantas
Houve cachaçada dos cangaceiros
Todo o bando começou a beber
O Lampião foi um dos primeiros

Zé Dantas abriu um “Macieira”
E sorrindo ofereceu pra Lampião
Os dois, intercruzando os braços,
Beberam com muita satisfação



Os cabras ficaram satisfeitos
Talvez mais ainda com a refeição
Bem preparada por Dona Neném
Esposa do delegado Caldeirão

Na farra dos cangaceiros houve
Muita música cantada e tocada
O garoto Edmundo brilhou tanto
Que parecia até um conto de fada.




O povo se uniu pra ver a festa
Já que perdera todo o medo
Viu Lampião comprar perfume
A Rogaciano e a João Macedo.

Graças à colaboração das pessoas
Neste dia ninguém entrou pelo cano
Mas de tardinha eles caíram fora
Em procura da cidade de Tucano

Lampião convocou o chofer Zé Rico,
Que se dizia alagoano, e não baiano,
Para levar apenas quatro cangaceiros
Para a vizinha cidade de Tucano

Berenguer também foi chamado
Para levar os outros até Tucano
Mas ao inventar  “quebrar” o carro
Por pouco não entrou pelo cano

A notícia do carro “quebrado”
Deixou os cabras sem ação
Uns se encheram de dúvidas
Talvez mais ainda o Lampião

Depois ficaram sabendo
Que o padre os enrolou
A partir desse momento
A paz do vigário se acabou

Tucano  muito rico de água
E estradas de muito barro
Aí Zé Rico não conseguiu
Evitar o atoleiro do carro

Estava muito tarde em Masseté
Deixou-se tudo para o outro dia
Desatolar o carro de José Rico
Era o que Lampião mais queria

Depois de tanta luta para viajar,
Um verdadeiro sacrifício humano,
Finalmente o motorista  José Rico
Conseguiu ver a cidade de Tucano

Em Tucano, Demóstenes o entrevista
Para ambos uma verdadeira glória
Graças aos esforços deste jornalista
Escreveu-se um capítulo da história.

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